24 janeiro 2007

O cinema e a língua


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Nos anos cinquenta e sessenta do século passado o ensino de línguas estrangeiras elegeu como mais essencial a língua francesa. Parecia ser, pensava-se nesse tempo, o acesso facilitado a uma cultura rica que se afirmava no mundo e que surgia exemplar aos olhos da Europa. Em segundo lugar situava-se a língua inglesa e por último, apenas para as opções na área das letras, o alemão.É claro que se discutiam prioridades. Havia os que defendiam o ensino do latim durante vários anos e também havia quem advogasse que a cultura germânica encerrava o conhecimento mais profundo das ciências e das letras da humanidade. Discutia-se quase sempre, não sem algum elitismo, os caminhos para a sabedoria.
Hoje em dia o cenário é outro. Com os imperativos económicos que foram surgindo, levando a que o ponteiro da bússola civilizacional teimasse para a necessidade do comércio mundializado, a língua inglesa impôs-se no ensino de forma avassaladora sobrepondo-se a todas as outras línguas. Assim, de imediato, podemos concluir que a escolha académica sucumbiu perante as necessidades profissionais. Os jovens, nos programas curriculares gerais, não mais tiveram acesso normativo ao francês… que terá sido classificado pelas gerações anteriores de uma língua vasta, sábia, doce e subtil…
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Isto tudo para dizer o quê? Seria desadequado, muito arriscado e fastidioso tecer aqui uma longa dissertação dobre a linguagem e as suas revelações…
O que quero tão-somente é dar-vos conta de um pequeno episódio passado ao balcão da bilheteira de um cinema. Perguntei à menina porque é que determinado filme, sendo de entre todas as sessões a opção cinematograficamente mais credenciada, só era exibido apenas uma vez por dia enquanto que a maioria dos filmes era apresentada em três e mais sessões repetidas. O meu espanto foi total com a sua amável explicação: «Sabe, é um filme francês com muito pouca audiência. As pessoas não gostam dos filmes em língua francesa, faz-lhes confusão…»
Olhei para o resto do catálogo: de facto os filmes eram esmagadoramente americanos. Acabei por ter que escolher um cujo horário me conviesse.
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Agora não paro de cismar no nascimento do cinema, na sua ascensão a arte maior, no melhor cinema de referência francês. Depois fico a rever a história do pensamento racional, da divisão dos poderes democráticos, da liberdade…que sei eu… é um nunca acabar de marcos culturais franceses! Depois dou comigo a pensar que os povos que foram colonizados por uma língua acabaram por esboroar a sua própria cultura. Eu não sei se isso é bom ou é mau, sei que os bárbaros destruíram o Império Romano. Sei ainda que os Estados Unidos têm pouco mais de dois séculos de existência… no entanto dados concretos permitem saber que algumas elites da sua população devoram avidamente a sabedoria do velho continente!...

Nuno G. Ferreira

3 comments:

Anonymous Marcelo Melo said...

Belissímo texto!

Apraz-me a ideia e a posição. Hoje em dia a escolha académica de uma língua sucede após a obtenção de credenciais na língua inglesa, infelizmente.

Sobre os filmes franceses, julgo que a menina do cinema faz eco do vício do cinema americano a que nos habituam os seus lobbys. Ao ver um filme francês as pessoas sentem-se perdidas no modelo cinematográfico, estranham a individualidade estilística das películas, e por isso sentem compulsão pela rejeição.

26/1/07 12:30 da tarde  
Blogger Caiê said...

Todo o cinema que não seja parte da grande indústria hollywoodesca cai dentro do saco não-comercial e, portanto, é rejeitado por muitos.

Quanto à língua francesa, posso pronunciar-me com certo conhecimento de causa, dado que trabalho na área... está quase completamente posta de parte em detrimento do inglês, hoje utilizado como língua-franca. Mas não perdeu o seu charme! :)

27/1/07 3:52 da tarde  
Anonymous ibis2 said...

Pena que as elites dos Estados Unidos e que devoram avidamente a cultura do velho continente sejam ainda tão restritas.
Assim ,juntamente com a falta de entusiasmo de certos bárbaros não haverá movimentação suficiente para fazer face ao império que agora se impõem.
Roma não cairá facilmente.
Não,pelo menos, pelo factor linguistico em si,mas talvez bem mais pela própria "lingua".

3/2/07 2:43 da manhã  

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