11 dezembro 2006

O Mundo das Ideias

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Para além do que a consciência nos faculta espontaneamente existe toda uma memória mais oculta distribuída pelo equipamento incumbido das nossas funções mentais. Talvez mais apropriado será, em vez de memória, usar o termo de inscrição uma vez que aquela se apresenta como realidade num espaço-tempo consciente e esta como uma amálgama mais ou menos desordenada, pertencente a um tempo cósmico indefinido, à espera de entrar em cena a todo o momento, formando uma espécie de metaconsciência que engloba não só as outras formas conscientes como também as inconscientes do conhecimento geneticamente transmitido e ainda os dados adquiridos pela experiência racional e sensorial que não são percepcionados pelo consciente.
Ou seja, o processo de relacionamento do “eu” consigo próprio e o mundo que o rodeia, bem como o entendimento de todas as coisas que os habitam de forma continuada e evolutivamente elaborada, estaria dependente de um “universo de impressões”, que embora possa trazer à lembrança o Mundo das Ideias de Platão se afasta totalmente da gnosiologia platónica pela ausência de qualquer pendor metafísico ou qualquer elemento estranho ao “eu”, que se pensa, enquanto espécime da humanidade, fazendo parte da sua época e do seu habitat próprios.
A esse universo aqui mencionado pertenceriam, a título de exemplo, o inconsciente colectivo de Carl G. Jung, as partículas quânticas que transportam o registo das vivências dos antepassados, os sonhos e pensamentos que flúem quando “sonhamos acordados”, as informações que nos invadem e trespassam por todos os lados sem que nos apercebamos nem de um décimo e enfim até aquele cheiro que nos recorda certo episódio da infância porque (sem o sabermos até essa altura) só nela existiu…

Cátia Farias

2 comments:

Blogger Bruno Santos said...

O que nos remete à sincronicidade.
Belo texto.

11/12/06 9:40 da tarde  
Anonymous Marcelo Melo said...

É dos textos mais exigentes, do ponto de vista da cultura do leitor, que li neste blogue.
Confesso que não percebi muito. Relembrou-me o livro do qual li apenas algumas passagens "Portugal: o medo de existir", pela utilização do conceito de "inscrição".

Continuação de boa produtividade.

15/12/06 10:27 da tarde  

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