11 novembro 2006

A Rua

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...o constante recurso ao resultado eleitoral para legitimação da acção governativa constitui um erro do discurso político que se volta facilmente contra quem o pretexta...
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Não existe qualquer movimento que se explique apenas pelo momento que lhe deu origem.
Assim como a força que gera e constitui é somente o princípio de algo e não a justificação plena da sua existência, também uma maioria absoluta, de uma jovem mas já céptica democracia no extremo Ocidente de uma ambígua Europa neste século vinte e um, não poderá nem de perto nem de longe fundamentar a sua acção no voto popular que a legitimou. Só a um discurso inflamadamente politicão é desculpável a recorrência maçadora de tal argumento.

A rampa de lançamento e a energia gerada para a partida ficaram já para trás. Melhor até que não se lembrem muito mais do que para além do seu interesse histórico. A partir daí desencadearam-se as possibilidades de movimento e acção. A aposta inicial, a confiança dada, começam de imediato a ser postas à prova e é na actuação, no desenvolvimento do compromisso que o acordo pode então fazer sentido. Depois de se aceder a um lugar há que demonstrar que se merece o lugar.
Assim não sendo estaríamos praticamente perante uma dessas “tiranias” da antiguidade clássica em que depois de eleito o assim chamado “tirano” este passava a exercer todo o poder de forma absoluta.

Penso que o constante recurso ao resultado eleitoral para legitimação da acção governativa constitui um erro do discurso político que se volta facilmente contra quem o pretexta. Antes crítico ou zangado do que arrependido… O resultado da actuação governativa mede-se sim, com a maior fidedignidade, não só na rua… mas por todas as formas e mais alguma de auscultação da temperatura social em cada local, em cada instante.

É da vida da população que se trata. É o seu pulsar que conta no dia-a-dia. Os temperamentos são volúveis e os ânimos facilmente exaltáveis. Muitos já nem se recordarão muito bem quando votaram e porque votaram. Se já nem são bem os mesmos!
Tudo muda…


Vasco Sousa

2 comments:

Anonymous Anónimo said...

Bravo!
BS

11/11/06 2:57 da tarde  
Anonymous Marcelo Melo said...

Devo dizer que o texto está de tal forma bem produzido que até se me torna um pouco difícil decifrar a sua mensagem com clareza.

Parece-me que a auscultação popular, como forma de solucionar questões ditas pertinentes e incontornáveis, pode ser um sinal de falta de preparação para produzir um posicionamento. Uma ocultação de incapacidade. Quem sabe um pedido de tempo...

16/11/06 8:04 da tarde  

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