05 novembro 2006

Etimologias


Ultimamente tem-se ouvido falar muito de promessas. Sobretudo de promessas que não se cumprem!...
A questão remete-nos mais uma vez para a linguagem, o esteio essencial de uma cultura que, como matriz do pensamento, é o elemento mais identificativo da evolução psicológica de determinada sociedade. Evolução no sentido de mudança. Há que convir que nem toda a evolução será por certo progressivamente positiva…

Não há muitos anos atrás, mais acentuadamente pela geração anterior, era muito utilizada a palavra honra. Dizia-se amiúde: «dou-te a minha palavra de honra». Significava-se com isto que não eram necessários argumentos ou provas complementares para que os outros acreditassem nas nossas asserções, nos nossos propósitos, nas nossas promessas. As raízes desta terminologia serão determináveis pelos mais estudiosos dessas matérias, todavia a nossa história mais épica demonstra facilmente que grandes compromissos foram concretizados quase exclusivamente com recurso ao conceito de honra como valor supremo e incorruptível. É muito frequente associar-se a palavra honra e tudo que se lhe associa à época dos descobrimentos como vínculo maior dos grandes almirantes aos seus deveres e empreendimentos, contagiando toda a sua tripulação. Aliás se quisermos ir mais longe no tempo e no relacionamento pessoal dificilmente conseguiremos dissociar a história de Portugal da noção de honra.

Hoje, em que quase tudo parece ser evidente, sendo tudo óbvio… as modestas linhas anteriores são [obviamente] muito rapidamente classificadas de barrocas, extravagantes, passadistas, quiçá ridículas.
Mas, regressando à linguagem, não são as minhas palavras que saem do contexto actual, mas sim o contexto actual que praticamente já não se confronta com o étimo honra. E porquê? Porque o conceito de honra, o valor que lhe corresponde, vai caindo em desuso, [obviamente] pelo desempenho que as gerações dos actuais “almirantes” e suas tripulações lhe asseguram.
Busco a palavra que me diga melhor o reconhecimento público: não encontro!

Alice T.

2 comments:

Anonymous Marcelo Melo said...

Belíssimo texto, honrado fiquei eu em lê-lo, não de uma honra qualquer, mas daquela que se sente quando se contacta com algo que tanto nos parece dizer respeito, ou por concodarmos ou por acreditarmos.

6/11/06 4:49 da tarde  
Anonymous js said...

honra? o que é isso?... poderia perguntar... realmente muitos valores que estavam ligados ao respeito entre os seres humanos têm caído em desuso ... muito por culpa de uma justiça institucional que não funciona e que não punindo acaba por premear quem desrespeita de toda e qualquer maneira o próximo...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt

9/11/06 9:16 da manhã  

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